UM PROBLEMA CHAMADO ENEM

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Mais uma vez, o Exame Nacional do Ensino Médio, mostra sua ineficiência e descrédito perante a nação brasileira. Desta vez a culpada é a Redação.

Nos últimos dias a imprensa nacional noticiou a confusão causada pela correção de várias (milhares) de redações do ENEM 2012, onde o tema central era a migração do povo haitiano ao Brasil nos últimos anos. Mais de 4,5 milhões de brasileiros fizeram a dita cuja redação. Redação do estudante paulista que dissertou sobre uma Receita de Miojo, macarrão instantâneo, onde o mesmo consegui atingir 560 pontos, causou revolta e desconforto entre os que participaram do ENEM 2012 e a cúpula dirigente do INEP, órgão vinculado ao Ministério da Educação, responsável pela organização e gerenciamento da prova de Redação do Enem 2012. Outros temas mirabolantes e sarcásticos colecionaram o duvidoso critério de seleção do ENEM. Desde 2007, o Exame Nacional do Ensino Médio vem causando aborrecimentos aos que utilizam a prova como meio de seleção tanto nas instituições públicas de ensino superior quanto nas privadas, através do programa federal de bolsas universitárias, chamado PROUNI, Programa Universidade para Todos.

A Redação do ENEM avalia cinco competências do autor. Essas competências são distribuídas entre o domínio da língua culta, a organização das ideias do texto, a compreensão do tema e da proposta, mecanismos lingüísticos e o conhecimento diverso relacionado ao tema com sugestões que abordem valores humanos, respeito e diversidade cultural. A correção das provas de Redação do ENEM é realizada por uma banca formada por quatro pessoas graduadas no curso de Letras e um doutor que irá equilibrar a média do autor da Redação caso haja incompatibilidade entre as médias atribuídas entre os membros da banca avaliadora. O critério de seleção que o INEP/MEC utiliza para selecionar estes professores que irão avaliar as Redações não é confiável e necessita de uma seleção avaliativa, pois, nem todos graduados em Letras dominam escrever bem, muito menos julgar uma Redação. Uma das Redações que foi selecionada com a nota máxima 1000 pontos tinha erros grotescos de concordância e acentuação bem como de ortografia. Erros dos quais inaceitáveis não para um estudante que está se submetendo a avaliação de uma Redação em nível do ENEM, mas sim pelo fato de ter-lhe atribuído conceito máximo, ou seja, 1000 pontos.

Erros de ortografia como “enchergar” e “trousse” são um dos exemplos da péssima banca que atribuiu tal nota a este autor. Esta não é uma Redação isolada. Ela pertence a um grupo formado por outras dezenas de redações que foram atribuídos 1000 pontos e possuíam erros gritantes gramaticais. Os lingüistas possuem uma visão sobre o ocorrido e os gramaticistas outra. Os lingüistas defendem a valorização da expressão, da língua e do falar. Já os gramaticistas têm uma versão de que a escrita deve se preconizar a valorização pela norma culta e pelas regras gramaticais que aprendemos desde nossa infância nas séries iniciais. Claro que estamos tratando de seleção pública que envolve milhões de estudantes, sendo eles de todas as classes sociais e econômicas, de diferentes saberes e formação escolar. Nada contra os lingüistas de plantão, mas, se formos focar a fala como referência de organização de uma Redação, trarar-se-á erros gritantes de escrita que são praticados quando falamos no dia a dia. Não estou defendendo aqui os gramaticistas e sim o que aprendemos durante 11 anos no banco escolar através da maneira correta de se escrever obedecendo às normas e regras da nossa língua portuguesa. Por se tratar de uma seleção pública concorridíssima o ENEM deve sim valorizar a norma culta da língua, sem desconsiderar a ideia central de que a argumentação e o desenvolvimento em uma prova de Redação são fatores essenciais para que o texto se complete entre coerência, coesão e a norma culta vigente. Se você, caro leitor, publicar seja um artigo, uma opinião ou um editorial em um jornal ou site e cometer erros semânticos e ortográficos será julgado pelos seus erros e não pelas suas ideias. Certo que sua opinião será debatida, mas seus desvios em relação à norma culta de escrita serão muito mais observados.

Uma boa Redação deve ter em comunhão respeito às normas gramaticais e desenvolvimento coeso em relação ao tema central do texto exposto para a confecção da argumentação. A fala é um mecanismo tão importante como a escrita, porém quando estamos tratando de uma avaliação com banca formada por profissionais do universo das letras, creio que a norma culta, o respeito às regras e o entendimento claro e coeso do texto são fundamentais para se atingir o objetivo esperado. O INEP/MEC precisa urgentemente modificar sua estrutura de seleção dos componentes de banca de avaliação das Redações. É necessário aplicação em todos os Estados da Federação, através das Secretarias Estaduais de Educação, avaliação e entrevista para que se possa conhecer melhor e eficazmente o perfil daqueles que vão avaliar e julgar as milhares de provas de Redação que fazem parte do universo de seleção do Exame Nacional do Ensino Médio. Como observei anteriormente nem todos os professores graduados em Letras e profissionais desta graduação que se encontram aptos a correção de redações tem o perfil para tal. Aqui em Rondônia, estado que resido, o critério de seleção é duvidoso e apadrinhado, privilegiando pessoas ligadas à alta cúpula administrativa da Secretaria de Estado da Educação. Há profissionais das letras e da comunicação muito preparados e com grande conhecimento de escrita, fala e organização textual que não são aproveitados pelo INEP/MEC devido à falta de comunicação por parte dos organizadores do ENEM e principalmente da Secretaria Estadual de Educação.

A Redação é um instrumento importante na avaliação de conhecimentos de um estudante ou de qualquer pessoa que venha a se submeter à avaliação do ENEM. É importante que uma banca de avaliação criteriosa e de alto nível seja pensada pelo Ministério da Educação. Mais ainda é importante que o ENEM não caia na descrebilidade e, assim, as instituições de ensino superior de natureza pública deixem de utilizar este importante instrumento de avaliação nacional que, infelizmente está se tornando satírico e duvidoso aos olhos do Brasil.

Prof. Victoria Ângelo Bacon